segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mais (muito mais) inquietações!

Por Flávio - Stay Freak

Enxergo a soberania e plenitude de Deus ao ver os pássaros exaltando com júbilo pela manhã, celebrando com a mais linda canção o nascer radiante do Sol, enquanto borboletas, as flores aladas, em seu pleno vôo, polinizam e mostram sua sensibilidade majestosa, não com excentricidades religiosas sobre todo o poder que Deus tem pra fazer minha empresa sair do vermelho.

Contemplo suas maravilhas, não com uma visão pragmática, catalogando quantas pessoas receberam cura, ganharam dinheiro ou conseguiram bons empregos vindo ao meu templo. Contemplo suas maravilhas vendo o milagre da vida: um óvulo fecundando que se transforma em um bebe ou em uma semente que se transforma numa árvore. Admirando o mar, ou olhando as estrelas na imensidão do universo que nem consigo precisar o tamanho. A fotossíntese, as metamorfoses e as sinapses. Como sabiamente disse Davi: "Os céus declaram a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra das suas mãos". Salmo 19:1

Não consigo mais ouvir “pregadores” previsíveis, parafraseando e descontextualizando trechos da Bíblia para abarcar suas panacéias e seus discursos fantasiosos, repletos de chavões que ignoram em todos os seus níveis a realidade do mundo que estamos inseridos. Prosperidade, semeadura, vitórias, riqueza, dízimos, merecimento, escolhidos, Deus vingativo, aff.... pouco fala-se do cerne do Cristianismo: amor e graça. Investe-se em performance artística com musica, gestos, apelo emocional e pouco conteúdo. A fragilidade dos ensinos é tão evidente que é refletida na maioria da literatura cristã. É impossível olhar nas prateleiras das livrarias cristãs e ver os diversos “Manuais de como prosperar com a ajuda de Deus” ou as “fórmulas mágicas do sucesso”, os ensinos “teológicos” de auto-ajuda cristã. Sorte ainda existirem Tolstoi, Dostoiévski , C S Lewis, G K Chesterton, Phlip Yancey, Frederick Bueghner, Paul Tilich, Brennan Manning, Tim LaHaye, Ricardo Gondim, Mo Sung, Victor Hugo e Shakespeare, que em suas palavras fazem-nos tocar o divino.

Sou elevado naturalmente ao trono do Pai ao som de Tchaikovsky, Bethoven e Vivaldi sem a necessidade de fechar os meus olhos, levantar as minhas mãos, curvar minha cabeça e fazer declarações aleatórias como insistem a maioria dos ministros de louvor. Paschale Bona disse que a música é “arte de manifestar os diversos afetos de nossa alma mediante o som”, logo se eles dominassem esta arte e tivessem tais afetos, não seria necessário tais estardalhaços para alcançar a presença de Deus.

A liturgia me irrita, os cultos programados e insossos aonde você entra, senta, levanta, canta, senta, ouve e vai embora. Não quero acreditar que o cristianismo se resume a isso.

Há um esforço transcendental em manter o “negócio” funcionando. Técnicas, “visões”, estratégias, construções faraonicas, entretenimento. O foco são os resultados, de ambos os lados, para quem mantém e para quem vai a igreja. Ficaram no passado os grandes pensadores e os grandes debates do inicio do século XX. Da mesma forma as expressões artísticas e culturais. Perdemos a sensibilidade humana de manter o equilíbrio transformando o casual em sagrado e o sagrado em casual. Nos preocupamos em ser igreja e não em “estarmos” igreja.

Fomos engolidos pelo ostracismo. Contentamo-nos com pouco e com as superficialidades. Queremos todas as respostas prontas, e não nos fazermos novas perguntas. Uma vez ouvi que se no cristianismo não tivermos espaços para novas perguntas caímos em duas situações: ou perdemos o sentindo da nossa existência e da contemplação do divino, ou torna-mos tão arrogantes em nós mesmos que achamos que sabemos tudo.

Não podemos reduzir o cristianismo a simples esquemas religiosos. Não podemos resumir o plano de redenção de Deus a ir aos cultos todos os domingos. Paul Tilich disse que “Deus está para além de Deus”, e é rumo a esta realidade que devemos caminhar: rumo ao divino, fazendo a diferença no nosso mundo. Pessoas espetaculares como Luther King Jr e as questões da segregação nos EUA, Desmond Tutu na África do Sul lutando contra o Aparthaid, Wiberforce ajudando a derrubar o regime esclavagista no parlamento Britânico, Madre Teresa apoiando e recuperando os desprotegidos em Calcutá e quantos outros anónimos que fazem a diferença no mundo todos os dias, são algumas das pessoas que entenderam a verdadeira mensagem em “Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a ti mesmo”.

Precisamos nos desvencilhar das campanhas, concentrações, superstições, marchas que levam 2 milhões de pessoas sem propósitos para a rua para ouvir meia dúzia de artistas que cobraram caches gigantescos e voltarmos onde caímos. Não precisamos reinventar o cristianismo, ao contrário, precisamos é traze-lo para as nossas vidas com a mesma simplicidade que ele foi nos dado nas palavras de Jesus: amor, amizade, relacionamento, justiça (também social), fazer o bem, perdoar, foco, lutas contra o ego, simplicidade, respeito, paternalismo, integridade, honestidade, liberdade, compreensão e sobretudo saber que a verdadeira igreja são pessoas, e Deus gosta de pessoas.

2 comentários:

Levi Bronzeado disse...

Prezado Rodrigo Melo


Impressionante!!!
Desde que iniciei a minha vida de blogueiro,jamais tinha lido um texto tão real e penetrante. (desses que vão até a divisão da alma e do espírito)

Deus está em muitos lugares, menos nos recintos do evangeliquês atual - onde sobre uma falsa capa de "culto", se pratica um ritual pagão sensacionalista, mecânico, vazio e sem sentido.

Que todos os blogueiros cristãos possam ler e refletir sobre as grandes verdades que estão expostas nessa memorável postagem.

Rodrigo Melo disse...

Caro Levi!

É verdade... alguns textos são impressionantes. De vez em quando acho essas raridades na blogosfera.

Sabe de uma coisa... tem hora que fico tão desmotivado de ler tanta coisa nada a ver, mas quando estou pensando em desistir, aparece textos iguais a este.

Que bom seria se todos os blogueiros perdessem uns minutos para ler essa postagem!

Abçs e mais uma vez obrigado pela visita!

A Paz!

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