quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Em quem posso tocar?

Por Renata Éboli - Blog da Equipe

Aqui na Portas Abertas todos os dias recebemos pedidos de oração. Alguns muito semelhantes entre si. O que é completamente compreensível, pois as causas da dor humana são, em sua maioria, universais. Esses pedidos são encaminhados por irmãos brasileiros, de outros países livres e de irmãos que vivem em contexto de perseguição.

É um grande privilégio partilhar nossas necessidades com irmãos em todo o mundo. Mas, em nosso trabalho cotidiano nos vemos diante de vários desafios. Um deles, no entanto, me levou a escrever. Trata-se do risco que corremos em nos habituar com o sofrimento. A naturalização das ocorrências de intolerância, oposição e perseguição aos nossos irmãos podem nos cauterizar, nos deixando insensíveis. Mesmo que racionalmente saibamos a profundidade e a dor que eles sentem, esse fato pode se tornar corriqueiro demais em nosso dia-a-dia. E esse perigo se estende a todas as situações que nos rodeiam e que deveriam nos tocar.

Há alguns dias recebemos, aqui no escritório, um pedido de oração vindo de uma das bases da Portas Abertas na Europa. O responsável por essa base encaminhou um sofrido pedido de oração pela esposa. O relato dava conta de que em três meses de dor intensa ela havia ficado sem dor por breves 30 minutos. E revelava que saber que estávamos intercedendo por eles ajudava-os a passar por aquele momento.

Esse episódio me fez lembrar de um momento que, até hoje, é extremamente sofrido para mim. O período em que minha mãe adoeceu, sofrendo por longo três anos, e sua posterior morte, foi um dos momentos mais dolorosos da minha vida. A convivência com a perda de entes queridos chegou para mim muito cedo. Isso me fez encarar a perda ocasionada pela morte com certa abnegação. Com minha conversão, esse sentimento ficou ainda mais ameno. Mas, perder a mãe é um segundo parto, com uma nova ruptura com aquele conforto que gozamos por 9 meses, agora por anos. Esse é o meu relato de um momento de sofrimento, igual a muitos que vemos e ouvimos todos os dias. Com uma diferença crucial, é o meu, e por isso, dói de forma extraordinariamente diferente.

Mas, o que o pedido de oração vindo da base da Europa tem a ver com lembrança do sofrimento que vivi pela perda da minha mãe? Assim como nossas orações têm feito diferença na vida desse casal, fez para mim e para minha mãe. Se pensarmos racionalmente, aparentemente nada mudou. A esposa do nosso irmão europeu continuou sentindo dores, minha mãe permanecia acamada e com muitas dores, mas, algo fez, sim, grande diferença.

Lembro a felicidade da minha mãe ao receber a visita de um amigo da juventude, convertido há poucos anos. Ele e sua esposa estiveram com mamãe dois meses antes de ela falecer. Levaram oração, consolo, flores e alegria para a vida dela. Talvez eles não soubessem o tamanho do bem que estavam fazendo a ela, e o quanto ela foi surpreendida por essa demonstração de amor. As dores ainda estavam lá, a tristeza por ter sido amputada ainda estava lá, mas, aqueles dois orando por ela, dedicando uma tarde para visitá-la, aliviou a dor do corpo, do coração e trouxe consolo à alma. Eles ainda estiveram com ela no hospital, onde apesar de estar no CTI, se mantinha lúcida. Isso aconteceu há quase um ano, e até hoje sou consolada pelo gesto desses irmãos.

É assim que nossos irmãos perseguidos recebem nossos gestos de empatia, quando oramos, nos dedicamos e os amamos. O fruto da nossa atitude talvez não mude a realidade deles no campo físico e material, até pode acontecer, mas, certamente mudará de uma maneira metafísica, espiritual, anímica.

É vital para nossa caminhada cristã trazer à memória os parâmetros do Senhor Jesus para tratar a dor humana. No evangelho vemos um Deus que se importa, se envolve e se solidariza com os que sofrem e os identifica um a um: “Quem tocou em mim?” (Lc 8.45)

A oração torna nossos braços longos para abraçar os que sofrem. Ela alcança os que estão longe e perto. Mas, ela pode ser acompanhada de outros ingredientes como sorrisos, flores, abraços. Atitudes tão simples para nós quando nos dispomos, e tão grandiosa para quem as recebe. Basta acordarmos todos os dias com um desafio em mente: – Em quem posso tocar hoje?

Minha oração é para que esse texto, de alguma forma, toque em você.

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