sábado, 5 de setembro de 2009

O sonho que abriu meus olhos.


... Tudo não passara de um sonho que tive acordado. Deixei-me, por um instante, ficar cego para o mundo exterior, para que os olhos da minha alma pudessem ver e sondar as profundezas, até então, indevassáveis do meu ser.

No sonho, eu via duas células se juntando. Logo depois elas davam origem a um embrião, que por sua vez se transformava em feto. De repente, uma mulher me apareceu em dores de parto. Percebi após um momento de silêncio, um choro forte de um bebê. Ouvi vozes ao longe: “Nasceu o filho da virgem Maria”.

Num segundo, lá eu estava vendo cenas da curta infância do Filho do carpinteiro José. De repente, ele me apareceu aos doze anos, corpo franzino, desengonçado, tinha a cabeleira vasta e desalinhada. Ainda tão criança já estava cuidando das coisas de seu Pai: discutindo religião com os mestres no Templo. Vi-me mergulhado no pequeno mundo dessa tenra criança.

Emocionei-me ao vê-Lo aos trinta anos, começando um breve e marcante ministério. Pude ver cenas de verdadeiros milagres. Vi muitas pessoas humildes reunidas ao seu redor, ouvindo em silêncio as suas interessantes lições sobre um Reino muito diferente daqueles que os fariseus preconizavam. Vi também homens que o perseguiam, e, eram esses homens, justamente, os sucessores de Moisés, que tinham a função de zelar pela Lei. Pela maneira que esses homens se comportavam, dava para perceber que estavam fazendo ali um “conchavo” de natureza política. Deu para notar sobre quem falavam. “É melhor que Ele morra, para que não percamos os nossos cargos” , deu para ouvir claramente.

Via-O agora aos trinta e três anos de idade, diante de uma corte de juízes. Ouvi ecoar o brado do veredicto: “será condenado à morte de cruz” , pena máxima para o horrendo pecado de blasfémia.

Vi depois, um túmulo vazio. Vozes diziam: “ele não está mais aqui”.

Fui transportado para um outro plano. Tinha chegado ao topo de uma colina, com o coração batendo forte, lutando bravamente para impedir a fuga do tempo, que teimava em avançar na sua corrida implacável, deixando dias, semanas, meses e anos para trás.

A uma distância de poucos metros, estava agora diante de dois homens. A certeza veio num estalo: estava presenciando um encontro inusitado entre um Pai e seu Filho. Cheguei mais para perto deles, pisando em lã, para não fazer barulho e não atrapalhar o significativo diálogo entre eles. Pena, que tenha perdido o começo da história que o Filho contava para o Pai, de maneira entusiástica.

Agucei bem os meus ouvidos para escutar a maravilhosa prestação de contas entre o Filho e seu querido Pai. Sentei-me de costas para uma escarpa, cuidadosamente, para não romper com o encanto daquele esplêndido quadro.

No oculto de minha doce solidão, transformei-me num expectador privilegiado de um diálogo, que mais tarde, me abriria os olhos para uma evidência maravilhosa. O diálogo emblemático, assim transcorreu:

─ Corri o risco de nunca mais voltar ─ disse o Filho para o Pai de olhar circunspecto.

─ Não havia outra alternativa para resgatar os filhos da minha maior obra da criação ─ respondeu o Pai ao seu Filho, em tom resignado. ─ Já estava cansado de tantas guerras contra os inimigos do povo que escolhi com tanto amor. Abrão, Moisés, Jacó, Davi foram grandes líderes, mas falharam na hora “H”. Todos foram tentados em seus próprios desejos, e, em maior ou menor grau, sucumbiram às artimanhas da geração daquele que, apesar de ser o mais belo e formoso dos anjos da minha corte, rebelou-se e quis usurpar o meu trono, motivo pelo qual foi lançado nas profundezas caóticas da terra.

 Compreendemos que, o maior inimigo do homem não era o seu semelhante  afirmou o Pai para o seu Filho.  A maior guerra, na verdade, estava sendo travada dentro do próprio indivíduo, entre as forças do mal e a sua consciência regida pela moral e ética que os ditames da minha Lei requeriam. Tornar esse fato, consciente, foi a razão maior do pacto que fiz contigo  concluiu o Pai, pousando suavemente a sua mão direita sobre a cabeça do Filho.

─ Não foi fácil meu Pai  disse o Filho franzindo o cenho. ─ Instintos medonhos habitam o oceano tenebroso da alma humana. Mergulhei profundamente no abismo profundo desse mar, onde dormem monstros terríveis que não podem ser despertados. Que pude comprovar, senão que a carne é fraca? Todas as vicissitudes e desejos humanos moeram-me por dentro. Doei–me de corpo e alma para viver a tragicidade da condição humana. Por isso mesmo me dispus perante Ti, a ser advogado de todos que me aceitaram como teu Filho, para perdoá-los em suas fraquezas. Está escrito que o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Não poderia entendê-los se o meu relacionamento fosse dentro de uma relação “Senhor  escravo”. Eram escravos e eu os transformei em amigos, para que vissem em mim um irmão, e não um senhor. Fiz-me igual a eles para ganhar a sua confiança, afim de que pudessem crer em Ti, através de mim. Desejos atrozes quiseram me dominar. Angustiei-me muitas vezes. Indignei-me com os que fizeram da Tua casa um covil de ladrões. Fui surpreendido com a fé de alguns que não eram judeus. Comovi-me com os que sofreram a perda de parentes próximos. Chorei sobre Jerusalém. Amei e intercedi pelos saudosos discípulos que me deste, os quais, foram uma parte de mim na nobre missão que me confiaste.

Eu ouvia tudo isso com o coração contrito, mas algo na minha imaginação, não encontrava eco em minha própria consciência. Sabia de antemão que Deus por ninguém é tentado. Como compreender que Ele entregara o seu único filho para ser tentado pelo veneno dos desejos pervertidos da milícia de anjos caídos que tinham como poderoso chefão, o ex-anjo de Luz, e agora Rei das trevas?

Ao ouvir atentamente toda a conversa entre eles, a minha mente, que até então estava obscurecida, abrira-se para a compreensão de que Cristo tinha inaugurado uma nova aliança, com o ser humano sob a égide da fraternidade. Fizera nascer o amor entre os irmãos. A barra transversal da cruz onde ficaram estendidos os seus braços na horizontalidade, passou a ser o símbolo maior dessa comunhão entre irmãos.

O inusitado diálogo do meu sonho acordado, trouxe-me à tona o “porquê” de Deus ter abandonado o seu Filho na cruz, a sua própria sorte. Por ter vivenciado todas as vicissitudes do drama humano, sem pecar, coube a Ele, assumir as consequências do pecado do homem, sacrificando-se até a morte, para religá-lo com o seu Criador.

Um clarão assomou a minha mente, fazendo-me lembrar do que estava escrito em Hebreus 4: 15: “Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas, porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado”.

Antes de despertar do meu sonho acordado, vi o Pai levantar-se do seu trono e dar um forte abraço no seu Filho único.

Antes de se retirar, tive a impressão de ver o Filho dirigir o seu olhar até onde eu estava. Não tive dúvida de que foi para mim que ele falou, encerrando o maravilhoso diálogo.

 Agora meu Pai, entendendo que a guerra interior entre a carne e o espírito é cruel e ininterrupta, toda vez que o homem fraquejar, Eu intercederei por ele, para que a Tua misericórdia o alcance  finalizou o Filho.

Foi essa frase conclusiva que me despertou do sonho acordado, abrindo os meus olhos interiores para enxergar que não estava só na minha caminhada , havia um amigo e irmão sempre ao meu lado, em qualquer situação.

2 comentários:

Fulvio Ribeiro disse...

Muito bom, gostei.
Forte abraço.

Suzanna disse...

Lindo mesmo.
Bjus
Su
www.sorrisodemulher.blogspot.com

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