quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Perfeição e proteção.


Entre as patologias que a religião produz, a mais grave tem a ver com neurose. Os seres humanos vivem iludidos com a possibilidade de construir um mundo arredondado, previsível, sem percalços. Imaginam trazer as contingências existenciais sob controle; fantasiam encabrestar leis físicas, metafísicas, espirituais, esotéricas, cármicas, qualquer uma, para afugentar o mal e atrair o bem.

Os que acreditam em um Deus títere, que enlaçou cordões nos dedos para manipular o mundo, nem precisam dominar leis, basta ganhar o favor divino; quem conquista a simpatia celestial, vira preferido. “Deus fará qualquer coisa para deixar a vida dos seus filhos isenta de sobressaltos”, prometem. “E se por algum motivo acontecer imprevisto, basta orar com fé; Deus, que permitiu doença ou acidente, vingará seu nome com um livramento sobrenatural”.

Os sistemas religiosos monoteístas se fortalecem com esse discurso; discurso de quem conhece o segredo de agradar a Divindade. “Obedeça, cumpra, sacrifique, humilhe-se e seja bonzinho segundo a nossa prescrição e o Senhor lhe sorrirá; a sua vida vai aprumar-se”.

Israel tentou; seus líderes se revezaram para homogeneizar as ações do povo. Tudo era feito para escapar de exércitos poderosos, de epidemias que assolavam o mundo antigo, de gafanhotos na lavoura, de infertilidade feminina (os homens nunca eram responsabilizados quando as mulheres não engravidavam).

Porém, os esforços empacavam. Bastava um sair da risca para desabar a idéia da nação impecável. Abraão mentiu. Ló tomou um porre. Moisés, intempestivo, assassinou. Acã afanou o que não devia. A lista de personagens que jogaram na lata do lixo a possibilidade da recompensa por bom comportamento é longuíssima.

Buscar uma humanidade perfeita com o intuito de acabar com o sofrimento, não funciona. Homens e mulheres serão sempre sombras e luzes. Bem e mal, duas palavras que zunem como golpe de espada, também expressam a riqueza da virtude. Acabar com a ambiguidade, que mora na alma, aniquila a criatividade humana. A pedagogia que conduz à maturidade precisa acolher erro, deslizes, inadequação.

Deus não desejou criar gente absolutamente previsível, pateticamente conformada às suas leis. Ele criou para que aprendêssemos a trabalhar o vai-e-vem do coração; hora, doce, hora, amargo. Ele espera que descubramos, nas excursões para o interior da alma, a riqueza do eterno vir-a-ser.

Soli Deo Gloria

Um comentário:

Eduardo Medeiros disse...

Ricardo Godim,um nome de destaque no cenário cristão brasileiro, ousa pensar para além das amarras das teologias que se pretendem absolutizadoras e definitivas.

parabéns pela postagem.

Abraços calorosos

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