sábado, 13 de fevereiro de 2010

O Pequeno Príncipe e a Raposa.


E foi então que apareceu a raposa:

- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu educadamente o Pequeno Príncipe que, olhando a sua volta, nada viu.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira.
- Quem és tu? Tu és bem bonita!
- Sou uma raposa.
- Vem brincar comigo, estou tão triste.
- Eu não posso brincar contigo, não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.

Mas após refletir, acrescentou:

- Que quer dizer “cativar”?
- Tu não és daqui. Que procuras?
- Procuro os homens. Que quer dizer “cativar”?
- Os homens, têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?
- Não, eu procuro amigos. Que quer dizer “cativar”?
- É algo quase sempre esquecido. Significa “criar laços”.
- Criar laços?
- Exatamente. Tu não és ainda para mim, senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo.
- Começo a compreender. Existe uma flor… eu creio que ela me cativou…
- É possível. Vê-se tanta coisa na Terra.
- Oh! Não foi na Terra.

A raposa pareceu intrigada:

- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa retomou seu raciocínio.

- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E isso me incomoda um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
Os teus me chamaram para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo.

A raposa calou-se e observou por muito tempo o príncipe:

- Por favor… cativa-me!
- Eu até gostaria, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer?
- É preciso ser paciente. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto.

No dia seguinte o principezinho voltou.

- Teria sido melhor se voltasses à mesma hora. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada, descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei à hora de preparar meu coração. É preciso que haja um ritual.
- Que é um “ritual”?
- É uma coisa muito esquecida também. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, adotam um ritual. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira é então o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu nunca teria férias!

Assim o Pequeno Príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou à hora da partida, a raposa disse:

- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse.
- Quis.
- Mas tu vais chorar!
- Vou.
- Então, não terás ganho nada!
- Terei sim, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:

- Vai rever as rosas. Assim compreenderás que a tua é única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.

O Pequeno Príncipe foi rever as rosas:

- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu a tornei minha amiga. Agora, ela é única no mundo.

E as rosas ficaram desapontadas.

- Sois belas, mas vazias. Não se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida, pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela quem eu reguei. Foi ela quem pus sob a redoma. Foi ela quem abriguei com o pára-vento. Foi nela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi ela quem eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Já que ela é a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

- Adeus…
- Adeus. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
- O essencial é invisível aos olhos, repetiu o principezinho, para não se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa, repetiu ele para não se esquecer.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse ainda raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa.
- Eu sou responsável pela minha rosa, repetiu o principezinho, para não se esquecer.

3 comentários:

Isaias Medeiros disse...

Rodrigo, gostei muito dessa postagem, ainda mais por que ela nos remete à infância, às primeiras "considerações acerca da vida" que fazemos.

E, indo "um pouco além do óbvio" percebemos que somos responsáveis por aquilo que acolhemos, alimentamos e não podemos mais tarde simplesmente dizer que não sabíamos.

Uma tocante mensagem.

Forte abraço.

Fábio disse...

Olá tudo legal? Gostaria de convida a conhecer meu pequeno trabalho no blog Ecos em www.ecosdotelecoteco.blogspot.com . Sucesso com o blog aí hein... T +

Eder Barbosa de Melo disse...

Olá, estou relendo o Pequeno Príncipe e me encantando novamente com esta história tão singela, muito interessante o Blog, parabéns! Estou seguindo, abraço!

http://recortecotidiano.blogspot.com/

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