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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ser ou não ser Pedro, eis a questão.

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Momentos antes de sua prisão, e logo após a sua última ceia, Cristo presenciou um forte bate-boca entre os discípulos; eles discutiam quem entre eles seria o maior. Foi nessa ocasião que o Mestre deu uma grande lição aos seus pupilos, ao dizer: “o maior entre vós, seja como o menor; e quem governa seja como quem serve”.

Os últimos instantes do Mestre junto aos seus discípulos, narrados por Lucas, nos dá a impressão de que Pedro estava meio alheio ante a gravidade dos fatos que estavam prestes a acontecer, quando Cristo, veementemente, o chamou por duas vezes para transmitir-lhe uma notícia não muito boa. Disse Cristo: “Simão, Simão, Satanás vos pediu para vos peneirar como trigo. Mas eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça. E tu quando te converterdes, fortalece os teus irmãos” (Lucas 22: 31 – 32)

O quanto se torna difícil entender que Pedro não era um convertido, quando se sabe que lá no começo de sua caminhada cristã ele tinha dado provas de sua extraordinária convicção, ao responder enfaticamente diante do Mestre dos mestres: “Tu És o Cristo, Filho do Deus vivo!” (Mateus 16: 16)

Quem poderá imaginar o que deve ter passado pela cabeça de Pedro ao ouvir da boca do Mestre (lá atrás no começo de Seu Ministério) essa grandiloquente declaração: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus” (Mateus 16: 19). Um presente como esse, para quem não era ainda um convertido, no mínimo deve ter levado o EGO desse apóstolo às alturas, e ao mesmo tempo deve ter deixado os outros discípulos em um conflito interno movido por pitadas de inveja. Ao serem tomados por este sorrateiro e sutil sentimento, quem sabe, se os outros apóstolos não confabularam entre si, dizendo o correspondente a frase comumente usada hoje: "Esse é o cara?"

À primeira vista, a confrontação das passagens de Mateus com as de Lucas, pode nos levar, racionalmente, a entender que Pedro era um convencido e não um convertido.

Mas afinal: Quem somos nós? Somos ou não somos convertidos?

Isto nos leva a refletir sobre o dilema de Hamlet: “Ser ou não ser, eis a questão”.

Mas, os pressupostos do cristianismo sinalizam que o “ser” ou “não ser” não é uma questão. Se, somos seres em movimento e não entidades estáticas, podemos “ser” e “não ser”. Em nossa caminhada diuturna, a luz do sol clareia pela manhã um lado do nosso corpo, parte essa do corpo que mais tarde, será tomada pela escuridão da sombra. É impossível fugir da rotina fatigante, que nos traz um mal a cada dia.

O meu eu transcendental que diz que sou um convertido, ignora o sol de minha individualidade e de minha realidade. Tenho momentos de fé e de contemplação, mas, também, tenho momentos de dúvidas e de descrenças.

Sobre a noção de que o SER é uma substância intemporal e imutável como pensava Parmênides e Platão, eu contraponho o conceito de Heráclito e Hegel de que a vida é um processo e não algo determinado, como uma substância. A vida é um eterno “transformar-se” e isto implica mudanças, em que o que temos como a verdade de hoje, não necessariamente, será a verdade de amanhã. A renovação do nosso entendimento implica transformações (é Bíblico). As notas musicais são as mesmas, apenas mudamos a posição das mesmas na pauta, para que se possa cantar um cântico novo.

Sou humano, por isso, não nego que ora em minha caminhada tenho sido o "Pedro" de Mateus 16: 16, e em outros momentos tenho me sentido como o "Pedro" de Lucas 22: 31. Às vezes, sinto-me resplandecente ante a glória dos céus, como ocorreu com Pedro lá no monte da transfiguração; outras vezes, sinto-me triste e acabrunhado quando Cristo sussurra ao meu ouvido, dizendo que ainda não sou um convertido, como aconteceu com o Pedro narrado em Lucas.

Quem me livrará desse terrível paradoxo, que me faz, às vezes, ser o Pedro com as chaves do reino dos céus nas mãos, e outras vezes, ser o Pedro envergonhado por negar a Cristo, três vezes seguidas, mesmo tendo sido alertado antes, que o diabo queria com ele cirandar.

Não! Decididamente, não posso aplicar aqui, o conceito Shakespeareano do “Ser ou não ser, eis a questão”

Fico com o filósofo Paulo de Tarso que disse: “pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço”. No momento em que digo: “sou” fraco, Ele diz és forte. No momento que penso “ser” forte, Ele me mostra o contrário.

Que me perdoe Shakespeare, mas com o advento de Cristo não há mais questão a ser resolvida, pois o ideal do “ser” é sustentado pela esperança de vida eterna. Quanto ao “espinho na carne”, símbolo da fraqueza do “querer ser” quando não se “pode ser” ─ a Graça Divina me basta, pois é ela que preenche a lacuna do meu vazio existencial. É justamente ela, que me faz entender que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza do “não poder ser”.

Sendo assim, o “ser convertido” e o não “ser convertido” são apenas instâncias ou momentos na vida do crente; são as faces opostas de uma daquelas monumentais pedras a que Cristo se referiu, quando falou que sobre ela construiria a sua Igreja. Em outras palavras, Ele quis dizer que, sobre as vicissitudes e faces paradoxais do homem (loucura para os sábios), se assentariam as bases de uma nova aliança Divina, que busca incessantemente, através da Graça, o “que não é”, para confundir o que “é”.

Porque não dizer que nós somos este Pedro paradoxal?

Porque negar o Pedro que temos dentro de nós, quando sabemos que a pedra (com suas faces opostas) a que Cristo se referiu, é uma das maiores metáforas existenciais que, indubitavelmente, simboliza o nosso ser ambivalente com todo o seu corolário de afetos contraditórios?

Sofreremos muito mais, enquanto não atentarmos para essa grande verdade: a de que as faces da PEDRA que habita em nós, jamais poderão ser vistas de um mesmo ângulo. Esta pedra tem várias faces: uma está voltada para cima, outra para baixo, outra para frente, outra para retaguarda e outras para as laterais. Para o expectador que nos vê, há sempre uma parte de nós encoberta, que ele não conhece.

Devemos aceitar de bom grado, esse grande espinho em nossa carne, que é o ter que carregar por toda a nossa vida esta cruz de muitos lados.

“E foi me dado um espinho na carne [...] afim de não me exaltar” (II Coríntios 12: 7)

sábado, 5 de setembro de 2009

O sonho que abriu meus olhos.

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... Tudo não passara de um sonho que tive acordado. Deixei-me, por um instante, ficar cego para o mundo exterior, para que os olhos da minha alma pudessem ver e sondar as profundezas, até então, indevassáveis do meu ser.

No sonho, eu via duas células se juntando. Logo depois elas davam origem a um embrião, que por sua vez se transformava em feto. De repente, uma mulher me apareceu em dores de parto. Percebi após um momento de silêncio, um choro forte de um bebê. Ouvi vozes ao longe: “Nasceu o filho da virgem Maria”.

Num segundo, lá eu estava vendo cenas da curta infância do Filho do carpinteiro José. De repente, ele me apareceu aos doze anos, corpo franzino, desengonçado, tinha a cabeleira vasta e desalinhada. Ainda tão criança já estava cuidando das coisas de seu Pai: discutindo religião com os mestres no Templo. Vi-me mergulhado no pequeno mundo dessa tenra criança.

Emocionei-me ao vê-Lo aos trinta anos, começando um breve e marcante ministério. Pude ver cenas de verdadeiros milagres. Vi muitas pessoas humildes reunidas ao seu redor, ouvindo em silêncio as suas interessantes lições sobre um Reino muito diferente daqueles que os fariseus preconizavam. Vi também homens que o perseguiam, e, eram esses homens, justamente, os sucessores de Moisés, que tinham a função de zelar pela Lei. Pela maneira que esses homens se comportavam, dava para perceber que estavam fazendo ali um “conchavo” de natureza política. Deu para notar sobre quem falavam. “É melhor que Ele morra, para que não percamos os nossos cargos” , deu para ouvir claramente.

Via-O agora aos trinta e três anos de idade, diante de uma corte de juízes. Ouvi ecoar o brado do veredicto: “será condenado à morte de cruz” , pena máxima para o horrendo pecado de blasfémia.

Vi depois, um túmulo vazio. Vozes diziam: “ele não está mais aqui”.

Fui transportado para um outro plano. Tinha chegado ao topo de uma colina, com o coração batendo forte, lutando bravamente para impedir a fuga do tempo, que teimava em avançar na sua corrida implacável, deixando dias, semanas, meses e anos para trás.

A uma distância de poucos metros, estava agora diante de dois homens. A certeza veio num estalo: estava presenciando um encontro inusitado entre um Pai e seu Filho. Cheguei mais para perto deles, pisando em lã, para não fazer barulho e não atrapalhar o significativo diálogo entre eles. Pena, que tenha perdido o começo da história que o Filho contava para o Pai, de maneira entusiástica.

Agucei bem os meus ouvidos para escutar a maravilhosa prestação de contas entre o Filho e seu querido Pai. Sentei-me de costas para uma escarpa, cuidadosamente, para não romper com o encanto daquele esplêndido quadro.

No oculto de minha doce solidão, transformei-me num expectador privilegiado de um diálogo, que mais tarde, me abriria os olhos para uma evidência maravilhosa. O diálogo emblemático, assim transcorreu:

─ Corri o risco de nunca mais voltar ─ disse o Filho para o Pai de olhar circunspecto.

─ Não havia outra alternativa para resgatar os filhos da minha maior obra da criação ─ respondeu o Pai ao seu Filho, em tom resignado. ─ Já estava cansado de tantas guerras contra os inimigos do povo que escolhi com tanto amor. Abrão, Moisés, Jacó, Davi foram grandes líderes, mas falharam na hora “H”. Todos foram tentados em seus próprios desejos, e, em maior ou menor grau, sucumbiram às artimanhas da geração daquele que, apesar de ser o mais belo e formoso dos anjos da minha corte, rebelou-se e quis usurpar o meu trono, motivo pelo qual foi lançado nas profundezas caóticas da terra.

 Compreendemos que, o maior inimigo do homem não era o seu semelhante  afirmou o Pai para o seu Filho.  A maior guerra, na verdade, estava sendo travada dentro do próprio indivíduo, entre as forças do mal e a sua consciência regida pela moral e ética que os ditames da minha Lei requeriam. Tornar esse fato, consciente, foi a razão maior do pacto que fiz contigo  concluiu o Pai, pousando suavemente a sua mão direita sobre a cabeça do Filho.

─ Não foi fácil meu Pai  disse o Filho franzindo o cenho. ─ Instintos medonhos habitam o oceano tenebroso da alma humana. Mergulhei profundamente no abismo profundo desse mar, onde dormem monstros terríveis que não podem ser despertados. Que pude comprovar, senão que a carne é fraca? Todas as vicissitudes e desejos humanos moeram-me por dentro. Doei–me de corpo e alma para viver a tragicidade da condição humana. Por isso mesmo me dispus perante Ti, a ser advogado de todos que me aceitaram como teu Filho, para perdoá-los em suas fraquezas. Está escrito que o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Não poderia entendê-los se o meu relacionamento fosse dentro de uma relação “Senhor  escravo”. Eram escravos e eu os transformei em amigos, para que vissem em mim um irmão, e não um senhor. Fiz-me igual a eles para ganhar a sua confiança, afim de que pudessem crer em Ti, através de mim. Desejos atrozes quiseram me dominar. Angustiei-me muitas vezes. Indignei-me com os que fizeram da Tua casa um covil de ladrões. Fui surpreendido com a fé de alguns que não eram judeus. Comovi-me com os que sofreram a perda de parentes próximos. Chorei sobre Jerusalém. Amei e intercedi pelos saudosos discípulos que me deste, os quais, foram uma parte de mim na nobre missão que me confiaste.

Eu ouvia tudo isso com o coração contrito, mas algo na minha imaginação, não encontrava eco em minha própria consciência. Sabia de antemão que Deus por ninguém é tentado. Como compreender que Ele entregara o seu único filho para ser tentado pelo veneno dos desejos pervertidos da milícia de anjos caídos que tinham como poderoso chefão, o ex-anjo de Luz, e agora Rei das trevas?

Ao ouvir atentamente toda a conversa entre eles, a minha mente, que até então estava obscurecida, abrira-se para a compreensão de que Cristo tinha inaugurado uma nova aliança, com o ser humano sob a égide da fraternidade. Fizera nascer o amor entre os irmãos. A barra transversal da cruz onde ficaram estendidos os seus braços na horizontalidade, passou a ser o símbolo maior dessa comunhão entre irmãos.

O inusitado diálogo do meu sonho acordado, trouxe-me à tona o “porquê” de Deus ter abandonado o seu Filho na cruz, a sua própria sorte. Por ter vivenciado todas as vicissitudes do drama humano, sem pecar, coube a Ele, assumir as consequências do pecado do homem, sacrificando-se até a morte, para religá-lo com o seu Criador.

Um clarão assomou a minha mente, fazendo-me lembrar do que estava escrito em Hebreus 4: 15: “Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas, porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado”.

Antes de despertar do meu sonho acordado, vi o Pai levantar-se do seu trono e dar um forte abraço no seu Filho único.

Antes de se retirar, tive a impressão de ver o Filho dirigir o seu olhar até onde eu estava. Não tive dúvida de que foi para mim que ele falou, encerrando o maravilhoso diálogo.

 Agora meu Pai, entendendo que a guerra interior entre a carne e o espírito é cruel e ininterrupta, toda vez que o homem fraquejar, Eu intercederei por ele, para que a Tua misericórdia o alcance  finalizou o Filho.

Foi essa frase conclusiva que me despertou do sonho acordado, abrindo os meus olhos interiores para enxergar que não estava só na minha caminhada , havia um amigo e irmão sempre ao meu lado, em qualquer situação.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A "Graça" é isto, e muito mais...

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Como definir o que é graça?

Poderá um reles humano exprimi-la em palavras?

Por mais que tentemos explicar, reconhecemos que na graça, há um resíduo inexprimível ligado a nossa subjetividade e individualidade, que a linguagem falada ou escrita é incapaz de abordá-la em sua completude. Os evangelhos a mencionam diversas vezes, em vários tipos de situações e circunstâncias.

Talvez, a nossa acomodação em não refletir sobre a graça, tenha nos acostumado na maioria das vezes, a fazer-lhe referência de um modo tão mecânico, que terminamos por transformá-la em um bordão, utilizado, habitualmente, em começo e fim de textos. O evangelista S. João, sentindo a sua evidência, de uma forma bastante clara e inspirada, assim escreveu: "[...] a Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por intermédio de Jesus Cristo." João 1:17

Debrucemo-nos mais sobre esse tema ─ razão maior do cristianismo que abraçamos com tanta fé ─ e veremos que os saudosistas dos rituais Vétero-Testamentários estão aproveitando o vácuo da incompreensão sobre o que denominamos graça, para sem a intermediação de Cristo, enganar multidões, dizendo-se profetas-mensageiros de Deus. Na realidade, as realizações e façanhas desses “anticristos” de ocasião são puras elucubrações, não tendo nada de poder Divino.

Cristo não veio definir a graça, mas veio viver ao nosso lado para demonstrá-la, através de suas atitudes, nas diversas e emblemáticas situações com que se deparou no seu curto, porém profícuo ministério.

O que aqui escrevo em vários parágrafos, são retalhos extraídos da infinita profunda e multiforme Boa Nova do Evangelho, mas reconheço que ela é muito mais do que isso. Não tenho dúvida, de que o amigo(a) leitor(a) poderia acrescentar muito mais conceitos sobre graça, extraídos de sua experiência particular e única com Deus, além dos que aqui, passo a mencionar:

A graça é aquela misericórdia infinita que diz que devemos perdoar até setenta vezes sete.

A graça é aquela que nos sussurra diante dos julgamentos que são engendrados em nossa consciência contra o nosso próximo, e nos faz silenciar, ao soprar ao nosso ouvido: “Quem não tiver pecado seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”.

A graça é aquela que esteve presente na afirmação enfática de Cristo, diante dos que exerciam juízo contra a prostituta: “Nem eu te condeno!”

A graça é aquela que fecha os olhos para os méritos, mas vê a simplicidade interior dos humildes que muita gente não vê.

A graça é aquela que não sabe amaldiçoar, pois só se alimenta do perdão.

A graça é aquela que cala a justiça
dos homens, em benefício dele próprio.

A graça é aquela coisa que faz acender
a nossa “luz vermelha”, pedindo que olhemos para dentro de nós, quando caímos em nossas contradições diárias.

A graça é aquela que superabundou onde o pecado abundou.

A graça é aquela que se revelou explicitamente no coração de Cristo, quando Ele explicou o motivo maior de não se odiar os que nos fazem mal: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”

A graça é aquela que escolheu as nossas fraquezas para que o poder de Deus se aperfeiçoasse nelas.

A graça é aquela que nos alerta para não incorrermos no paradoxo de se pregar, fazer milagres e maravilhas, sem ter amor.

A graça é aquela que tem de ser buscada diariamente, para que nos nossos escorregos diários, não venhamos assumir de novo os fardos pesados da maldição da Lei.

A graça é aquela consciência adquirida
através da fé em Cristo, de que não são mais necessários os sacrifícios ou penitências para apagar fatos do passado de nossa ignorância. É a certeza de que a verdade de ontem, firmada sem excepcionalidade nos severos ditames da lei, foi sepultada com Cristo, lá na cruz do calvário. Quem não tiver esta certeza ─ é uma pena ─, vai viver eternamente se cobrando por coisas que o sangue de Cristo já apagou de uma vez por todas. Nunca é demais, através de um exercício diário, impregnar a nossa mente com esse emblemático versículo: "[...] a Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por intermédio de Jesus Cristo." João 1:17

A graça é aquela que está sempre incluindo, e nunca excluindo.

A graça é aquela que ao inundar o nosso coração
, faz calar a arrogância, dissipando toda soberba.

A graça é aquele bálsamo que invade o nosso interior, perdoando-nos e nos aliviando quando no mais profundo abismo do nosso ser, as feras terríveis, em revolta nos fazem sofrer.

A graça é aquela bondade regida pela misericórdia
infinita, que a nossa natureza animal resiste egoisticamente, ao racionalizar a justiça Divina com vingança.

A graça é aquela que não anda junto com sacrifícios, votos e oferendas.

A graça é aquela que foi soprada ao ouvido do apóstolo de Tarso, quando ele desejou criar asas antes do tempo: “a mim te basta ─ Paulo!”

A graça é aquela que nos faz crescer quando mergulhamos em nós mesmos, e nos faz diminuir, quando intentamos ser melhor e maior que o outro.

A graça é aquela que entende que as aflições da vida, são contingências naturais de nossa caminhada, sem que signifique castigo ou maldição divina.

A graça é aquela que não usa o artifício do medo, para obrigar o homem a agir contra a voz de sua própria consciência.

A graça é aquela, que por ser dom gratuito de Deus, nunca se vende nem se deixa ser comercializada.

A graça é isto, e muito mais...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Quem é você?

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Naquela noite, a sua máscara caiu.

Ele era um pregador fantástico. Dizia-se que no meio evangélico, não havia igual. Ganhou fama e notoriedade pelos sermões que realizava nas noites de domingos em sua igreja. Era um perito tanto em anestesiar as massas, como em incendiá-las. Aplicava com esmero, as noções do populismo eclesiástico que importara dos EUA.

Tinha mandado aumentar a área do púlpito de seu templo, a fim de poder executar as suas dramatizações com mais liberdade. Tomara aulas de patinação por dois meses, e ultimamente usava patins com roldanas para deslizar suavemente no assoalho reluzente do palco “divino”, onde emocionava a plateia ensandecida, com suas peripécias circenses. O som estridente de “Ô glóoooooriaaaa!” ecoava quando ele rodopiando sobre as rodas dos seus patins, assim falava:

─ Irmãos! Lá no Céu não iremos nos cansar, caminhando ou andando, como se faz aqui na terra. Lá deslizaremos suavemente em patins de ouro e de prata, pelas ruas de cristais da Nova Jerusalém.

Para demonstrar o ruído dos patins “celestiais”, ele deslizava em círculos pelo palco gritando:

─ Vai ser assim irmãos! Vai ser assim! Olhem, olhem bem!

E como ele sabia bem dominar o público! Com esperteza e astúcia, conseguia tirar da multidão o tipo de emoção que quisesse ─, como um exímio violonista faz com as cordas do seu instrumento. Ante a sua verve, a multidão ora respondia com gritos histéricos, ora reverberava com choros e saracoteios.

Os seus emblemáticos sermões de domingo à noite o levaram aos píncaros da fama. Os cachês que no início eram modestos, agora atingiam vultosa soma Era disputadíssimo, para falar em congressos evangelísticos nas grandes cidades do país. Sabia como ninguém, sugestionar as massas. Dizia: “hoje eu quero cinquenta almas rendidas aqui a minha frente”. E não é que vinham aos pés do preletor, o dobro do número por ele vaticinado!.

Adorava criar vinhetas e bordões, executando uma exegese exótica e fantasiosa dos escritos de João no seu Livro, Apocalipse. Numa excitação alucinatória inacreditável, fazia todos verem as mansões celestiais. Para isso, ele primeiramente mandava a multidão fechar os olhos, e pressioná-los com bastante força com os dedos, para em seguida perguntar:

─ O que vocês estão vendo nesse momento?

E a multidão ensandecida, e sob esfuziante barulheira dizia em coro:

─ Estamos vendo as luzes da Cidade Santa.

Quem estivesse observando o quadro à certa distância, concluiria, tratar-se de uma histeria coletiva.

Ao chegar a sua casa, após o término dos seus fantásticos sermões, o pregador executava a velha rotina: despia-se de sua colorida indumentária, lavava o rosto, para retirar as tinturas da pegajosa maquiagem, e vestia o seu pijama de pura seda, para mergulhar, em seguida, na sua imensa e macia cama.

Recentemente, após um desses fenomenais cultos, um fato surpreendente fez com que ele não conseguisse conciliar o sono. Ele ouvia um programa evangélico pelo seu radinho de cabeceira, quando, foi surpreendido por um hino do “Trazendo a Arca” ( Ministério do Louvor). A letra do hino bateu muito forte dentro dele, ocasionando uma súbita elevação de sua tensão arterial, que terminou por levá-lo a um Serviço Médico de urgência, onde ficou em observação tratando-se de uma crise hipertensiva. Segundo a equipe médica de plantão, tudo fora ocasionado por um forte abalo emocional.

Após essa noite fatídica, ninguém mais ouviu falar no nome desse ator gospel.
Diziam, à boca pequena, que ele tinha tomado um chá de sumiço. É bem verdade, que alguns da igreja ficaram com saudades dos fantasiosos e açucarados sermões, entremeados de cenas circenses, nas noites de domingo.

Nota do autor:

O leitor, com certeza, está ansioso para ouvir a canção que desestabilizou o famoso pregador dos domingos à noite. O título desse hino é: “Quem é Você”

Relaxe bem, e clique aqui em baixo, para ouvir essa bela melodia, prestando, é claro, bastante atenção na sua inspirada e interessante letra:

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Sentimento de amor:

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O que há por trás?
Por Levi Bronzeado - Ensaios & Prosas

“Eu te amo meu amor”. Quantas vezes recitamos e ouvimos essa frase “clichê” pela vida afora. Quantas vezes a palavra “amor” está sendo repetida por esse mundão de Deus, agora mesmo, quando me debruço para escrever sobre o que sutilmente se encontra por trás desse tão falado e decantado afeto.

Quero falar do sentimento de amor que se confunde com o senso de “poder”. O poder intuitivo de dominar o outro, de tomar posse do outro. Afeto esse, que na maior parte das vezes não se torna consciente, por se encontrar escondido nas instâncias mais obscuras e profundas do nosso ser.

Será que ele mentiu quando disse que a amava tanto, que não podia viver sem ela?.

Será que traduzindo em miúdos, o “amor”, para o galanteador, não se resume a um mero sentimento de posse, o desejo possessivo de ter uma pessoa transformada em instrumento ou objeto em suas mãos?.

Às vezes, dizemos que amamos a esposa, o filho, o empregado de casa, ou mesmo um mendigo de rua, sem se ater a uma reflexão mais criteriosa. Reflexão essa, que pode simplesmente desembocar na constatação de que esse “amor” não passa de um sentimento de gratidão, por essas pessoas terem se tornado objetos de nossa dominação. Então, imaginamos que dominamos àquelas vidas, pelo simples fato de “amá-las” muito; na verdade, “as amamos” porque as dominamos.

Por vezes, aprisionamos nossos filhos em gaiolas douradas, e dizemos para nós mesmos: “é para sua proteção”. Racionalizamos que essa preocupação natural é “amor”. No entanto, essa percepção não passa de uma dominação ou propriedade.

O resultado é que quando o filho cresce, o que fica plantado nele é o receio de amar, pois o amor para ele, subtende-se, que é ficar preso e obstado. O amor que trava a liberdade não é amor, é possessão.

Infelizmente, em nossa cultura tratamos os outros como mercadoria. Achamos que para adquiri-los basta que eles fiquem dependentes de nós. Erich Fromm ─ o grande humanista da filosofia clássica alemã, escreveu: “Só há um sentido para a vida: o próprio ato de viver”.

Poderemos até pensar que a educação ensina a amar. Educar como se doma um animal, nunca vai fazer nascer na criança o sentimento do amor. Não podemos negar que, na grande maioria das vezes, o que as crianças aprendem na escola, são modos de representação para indicar para sociedade que elas gostam e aprovam aquilo que foi infundido em suas mentes. Tanto os pais, como os professores ensinam a criança a ser indiscriminadamente amistosa, como os trejeitos ensaiados de como sorrir e tagarelar.

Então, em suma, o que se esconde por trás desse amor artificialmente imprimido?

Escondem-se a jovialidade e a cordialidade adquiridas e expressas no que denominamos: “bons modos sociais”, ditas em outras palavras: “reações condicionadas”. E nós, os pais, ficamos na incumbência de ligar e desligar o interruptor dos nossos autômatos filhos.

Por outro lado, a religião corrobora com todo esse mecanismo de dominação, ao ensinar a esconder os próprios sentimentos. Os atos psíquicos originais da criança, através de subornos, são substituídos por meros clichês de convivência social. Sem poder expressar os seus sentimentos, o ser em formação vai se adaptando a um regime de escravidão psicológica dentro de um mundo ilegítimo e estéril.

Ela, a criança, aprenderá no mínimo, que AMAR, é ter que dominar o outro, e submetê-lo aos seus próprios poderes.

Como haverá lugar para o amor, se o mais alto valor humano é o sucesso? Como haverá lugar para o amor se em nossa vida diária o objetivo principal é nos transformarmos em um mero instrumento de competição dentro de uma máquina que nós mesmos construímos? É no meio dessa engrenagem chamada “sociedade” que tudo se confunde: desejo se confunde com fé; dependência se confunde com benevolência; ações egoístas se confundem com amor e altruísmo.

Vivemos dentro dos meandros de um amor utilitarista que depende da aprovação alheia ─ que faz o homem perder a sua identidade, alienando de si mesmo. É essa alienação constituída pela indiferença a si próprio e aos outros, que faz deitar raízes maléficas em toda a nossa cultura secular.

Não há dúvida de que há muita inverdade e artificialidade por trás daquilo que tão “humanamente” denominamos de “amor”. O escolástico Hugo de São Victor (século XI), à respeito do amor desinteressado, assim se pronunciou: “[...]Pois o que é amar, senão querer possuir a quem se ama? Na realidade não procuras outra coisa em troca de teu amor, e no entanto procuras e desejas algo naquilo mesmo que amas”.

O Apóstolo Paulo no final de seu memorável sermão sobre o amor, disse: “Agora vemos em espelho, de maneira obscura [...];” (I Coríntios 13 :12)

Está escrito: “o amor é paciente, é benigno. O amor não inveja, não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal. O amor não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo suporta, nunca falha [...]” (I Coríntios 13). Nesse mesmo capítulo fala-se de fé e esperança. Esperemos então esse verdadeiro sentimento pleno de amor. “Um dia o veremos face a face” ─ disse o apóstolo Paulo, resignadamente.

Peçamos a Deus que nos dê de sua graça e estenda a sua misericórdia sobre nós, pois, somos reles humanos, vendidos como escravos ao pecado. Quanto mais lutamos para conhecer esse amor em toda a sua plenitude ─ do qual Cristo foi portador ─ mas afundamos dentro de nossa desprezível pequenez. “A minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” ─ foi a resposta Divina dada a Paulo num momento em que ele se deixou levar pelo “poder” da exaltação.

Mas, finalmente, o que há por trás desse sentimento de amor que permeia nossa vida de relação? Será que existe em nós uma verdade latente que resistimos em aceitá-la? Será que não estamos a confundir o sentimento de amor com os nossos discursos amorosos, provisórios e às vezes antagônicos, em relação ao outro? Será que por trás desse discurso afável, de belos gestos e belas palavras, não se escondem odiosos pensamentos e os mais repulsivos intentos? Será que o poder racional de convencimento, que manejamos tão bem, não é uma “meia verdade” que se oculta por trás do nobre sentimento de amor, que tanto se fala, se canta, e se declama em versos, ensaios e prosas?

“...porque o AMOR é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme.”
(Cantares de Salomão 8: 6)

domingo, 15 de março de 2009

"Avivamento Gospel"

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Dez regras práticas do "Avivamento Gospel"

1. Ficar sempre atento à programação mediática gospel dos meios de comunicação, a fim de não faltar aos shows e congressos de avivamentos “inspirituais” programados em seu Estado. Se possível freqüente essas seções diariamente. Quanto ao estudo da Palavra, basta apenas aquela horinha na escola bíblica dominical.

2. Não quebre a cabeça com estudos bíblicos demasiados longos, principalmente àqueles que exigem uma infinidade de obras para consultar, como livros de História, de Geografia, de Filosofia Cristã, de Teologia e outras “gias”, além de enciclopédias e dicionários. Nas livrarias gospel você já encontra tudo mastigadinho para o seu crescimento espiritual, sem necessidade de forçar a mente. Lá você pode adquirir pacotes de “pague 3 e leve 4”.

3. Se tiver que decidir entre um “show de avivamento” e uma reunião de estudo bíblico, não vacile escolha o primeiro. Afinal, a nossa vida aqui é tão curta, e esse negócio de estudo pode prejudicar a saúde mental, principalmente daqueles que já ultrapassaram os 45 anos. Veja e compare: aqueles que saem dos "retetés" de avivamento apresentam-se alegres e de faces radiantes, enquanto aqueles que saem do estudo das Escrituras Sagradas apresentam-se cabisbaixos, apáticos e com cenhos franzidos, como se tivessem acabado de assistir a uma sessão de tortura.

4. Nos grandes congressos e festas gospel use ao máximo, o som esfuziante das bandas de forró, axé e frevo. Não deixe a multidão “paradona”. Incentive as palmas, os gritos dos bordões evangeliquês, os pula-pulas, os cai-cai, etc

5. Se você é o preletor oficial, nunca deixe de suar a camisa, e se possível o paletó. Nunca deixe de imprimir aquele vozeirão dramático e tonitruante. Se a platéia se mostrar fria, exerça os seus dons teatrais, como pulos, cambalhotas, sapateados e lançamentos de bíblias ou lenços, que você tão bem ensaiou.

6. Não deixe de comprar em nossas livrarias, os famosos livros de marketing sobre pregações para multidões, como os recentemente publicados: “Como Inflamar as Multidões” ─ de Flamarion Nazareno; e o best-seller: "Cem Conselhos para Incendiar as Igrejas"─ de Pinto Sette e Caio Botafogo.

7. Os organizadores dos shows de avivamento gospel, não podem em hipótese alguma, reservar muito tempo para a exposição da Palavra de Deus. Os sermões longos causam enfado e deixam as multidões sonolentas.

8. É patente e notório que, se você quiser ganhar um maior número de almas para seu rebanho, deverá pregar mais sobre Apocalipse, enfatizando com cores fortes, o terror do fim do mundo e do inferno. As pessoas temem muito o castigo final, e consequentemente, vão procurar ligeirinho, uma igreja para se congregar.

9. Não esqueça o que preconiza o marketing da “Hora do Apelo”. O mesmo deve ser executado com muito esmero. Intensa e solene dramatização, ao som de “corinhos” e de uma suave e crescente pressão dos auxiliares junto ao assustado pecador, para que “livremente”, ele se dirija ao púlpito, a fim de ser contabilizado para a honra e glória do pregador.

10. Após o término dos shows, todos deverão procurar as nossas barracas de cds, vídeos, camisetas, revistas, sandálias, toalhas, pratos, chaveiros, bolsas e bonés com versículos bíblicos e emblemas judaico-cristãos, a fim de adquirir um ou mais objetos para se guardar como recordação. OBSERVAÇÃO: levem sempre algum dinheiro na carteira, pois não aceitamos cheques ou cartões de crédito.

Fonte: Ensaios & Prosas
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